sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Texto 1

UMA ANÁLISE DA ORAÇÃO "AVE MARIA" SOB AS PERSPECTIVAS da FILOSOFIA, da PSICOLOGIA POSITIVA, PSICOLOGIA JUNGUIANA e da PSICANÁLISE...

A oração "Ave Maria", amplamente reconhecida como um pilar da tradição cristã, transcende os limites da espiritualidade formal e se torna um objeto de investigação filosófica e psicológica. Sua riqueza simbólica, aliada ao impacto emocional e espiritual que exerce sobre os fiéis, permite uma análise interdisciplinar, integrando filosofia, psicologia positiva e psicologia junguiana.

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1. Perspectiva Filosófica: A Contemplação da Virtude e do Divino

Do ponto de vista filosófico, a "Ave Maria" pode ser compreendida como uma ode à transcendência. A saudação "Ave, cheia de graça" evoca uma visão platônica do ideal de perfeição, onde Maria é elevada ao arquétipo do Bem. Para Platão, o Bem é a forma suprema, acessível através da contemplação intelectual e espiritual, e Maria pode ser vista como um canal para essa experiência.

Aristóteles, por outro lado, enfatizaria o papel da virtude em Maria, reconhecendo nela a aretê, ou excelência moral, que inspira os indivíduos a buscar a eudaimonia, a plenitude da vida. Além disso, Santo Agostinho e Tomás de Aquino interpretam Maria como um reflexo da graça divina, reconciliando o finito e o infinito.

A dimensão ética da oração também é notável, pois a invocação de Maria como "Mãe de Deus" e "rogai por nós, pecadores" sugere a necessidade de intercessão e reconciliação, fundamentos da ética cristã. Essa visão é ressonante com a ética da alteridade de Emmanuel Levinas, onde o apelo ao outro – no caso, Maria – simboliza a responsabilidade pelo bem-estar coletivo.

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2. Psicologia Positiva: O Poder Transformador da Fé e da Gratidão

A psicologia positiva, desenvolvida por Martin Seligman, encontra na "Ave Maria" uma fonte de emoções positivas que promovem o bem-estar psicológico. O ato de recitar a oração estimula sentimentos de esperança, gratidão e amor, essenciais para a resiliência emocional.

2.1. Esperança como Força Motriz:

O pedido "rogai por nós, pecadores" reflete a busca por um futuro melhor, um elemento essencial para a construção da esperança, que Seligman identifica como um dos pilares do florescimento humano. A esperança, neste contexto, é alimentada pela crença em uma força superior que pode intervir em momentos de dificuldade.

2.2. Gratidão e Bem-Estar:

A exaltação de Maria como "bendita entre as mulheres" é um reconhecimento que pode ser associado ao exercício da gratidão. Estudos indicam que a prática regular da gratidão melhora a saúde mental e reduz sintomas de depressão e ansiedade, efeitos que podem ser experienciados ao meditar sobre as palavras da oração.

2.3. Significado e Conexão Espiritual:

A repetição da "Ave Maria" em práticas como o terço reforça o senso de significado e propósito, elementos fundamentais para a psicologia positiva. Essa prática cria um estado meditativo que promove a calma e a regulação emocional.

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3. Psicologia Junguiana: A Oração como Arquétipo e Processo de Individuação

Carl Gustav Jung oferece uma interpretação simbólica profunda da "Ave Maria", integrando-a no contexto do inconsciente coletivo e dos arquétipos. Para Jung, Maria é a personificação do arquétipo da Grande Mãe, que representa acolhimento, nutrição e proteção.

3.1. Arquétipo da Grande Mãe:

A invocação de Maria como "Mãe de Deus" reforça a conexão com o arquétipo da Grande Mãe, que transcende tradições religiosas e aparece em diversas culturas. Esse arquétipo simboliza o útero cósmico, onde a transformação e o renascimento ocorrem. Na prática da oração, o indivíduo encontra consolo e força para enfrentar seus desafios internos.

3.2. Processo de Individuação:

A oração também pode ser vista como uma ferramenta no processo de individuação. Ao reconhecer sua condição de "pecador" e buscar a intercessão de Maria, o indivíduo confronta suas próprias sombras e aspira à integração das polaridades internas. Maria, como símbolo da graça e da compaixão, torna-se uma guia nesse caminho.

3.3. Reconexão com o Sagrado Feminino:

Na psicologia junguiana, o Sagrado Feminino é essencial para o equilíbrio psíquico. A veneração de Maria proporciona um espaço para reconectar-se com as qualidades femininas da psique, como intuição, cuidado e empatia.

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Uma Análise da Oração "Ave Maria" sob a Perspectiva Freudiana

A oração "Ave Maria", como objeto de estudo psicanalítico, apresenta uma rica gama de conteúdos simbólicos que dialogam diretamente com os conceitos fundamentais da teoria de Sigmund Freud. Na psicanálise freudiana, a religiosidade é vista como uma manifestação do inconsciente, carregada de conteúdos emocionais relacionados à infância, às figuras parentais e ao desejo de proteção. Nesse contexto, a "Ave Maria" pode ser analisada como uma expressão cultural e psíquica de mecanismos como a idealização, a regressão e a sublimação.

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1. A Figura de Maria e o Complexo Materno

Freud reconheceu o papel central das figuras parentais na formação do aparelho psíquico, particularmente na construção do eu e na resolução do Complexo de Édipo. A figura de Maria, invocada na oração como "Mãe de Deus", pode ser interpretada como uma projeção cultural do arquétipo materno, uma representação simbólica da mãe ideal.

1.1. Idealização Materna:

Maria é elevada à condição de "cheia de graça", um modelo perfeito de pureza e amor. Essa idealização reflete o desejo inconsciente de retornar ao estado de segurança absoluto associado à relação com a mãe na primeira infância, quando ela é percebida como onipotente e incondicionalmente acolhedora.

1.2. O Desejo de Proteção e a Regressão:

O apelo "rogai por nós, pecadores" manifesta um anseio por proteção e perdão, típico da relação com a mãe na infância. Segundo Freud, a religião frequentemente atua como uma "neurose universal", permitindo que os indivíduos regressem simbolicamente a um estado de dependência infantil perante uma figura protetora.

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2. Religião como Sublimação

Freud descreve a sublimação como um processo pelo qual desejos instintuais, especialmente ligados à sexualidade e agressividade, são transformados em formas socialmente aceitáveis, como a arte, a ciência e a religião. A "Ave Maria", com sua linguagem exaltada e devoção à figura materna, pode ser vista como uma sublimação do desejo de unidade e reconciliação.

2.1. A Subjugação do Instinto:

A oração direciona a energia psíquica de impulsos libidinais para um objeto transcendente, Maria, promovendo a contenção dos instintos primários e sua canalização para o âmbito espiritual.

2.2. Redenção e Culpa:

O trecho "rogai por nós, pecadores" evidencia a internalização do Superego, a estrutura psíquica responsável pela moralidade. A oração permite a elaboração simbólica da culpa, oferecendo um espaço para buscar a reconciliação com os ideais culturais e religiosos introjetados.

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3. O Inconsciente e os Simbolismos da Oração

A linguagem da "Ave Maria" carrega uma riqueza de simbolismos que, segundo Freud, refletem conteúdos do inconsciente coletivo e individual. A saudação "bendita sois vós entre as mulheres" evoca uma representação arquetípica da feminilidade idealizada, enquanto a figura de Jesus, mencionada como fruto do ventre de Maria, representa o cumprimento do desejo de perpetuação e transcendência.

3.1. Transferência Psíquica:

Ao dirigir a oração a Maria, o indivíduo transfere para ela os afetos e desejos inconscientes ligados à figura materna. Essa transferência cria um espaço de elaboração psíquica, onde o sujeito projeta e organiza suas angústias e esperanças.

3.2. O Retorno ao Útero Psíquico:

O apelo à "Mãe de Deus" pode ser lido como uma tentativa de reconexão simbólica com o útero materno, um desejo inconsciente de regressar a um estado pré-edípico de harmonia e proteção absoluta.

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4. Religião e Neurose: A Função Psicológica da Oração

Freud, em O Futuro de uma Ilusão (1927), argumenta que a religião desempenha um papel análogo ao da neurose, ao oferecer uma estrutura simbólica para lidar com a ansiedade existencial e o medo da morte. A "Ave Maria", ao invocar Maria como intercessora e mediadora, proporciona uma válvula de escape para as tensões internas, funcionando como um mecanismo de defesa.

4.1. Alívio da Ansiedade:

O ato de recitar a oração cria um ritual repetitivo que reduz a ansiedade ao oferecer uma sensação de controle simbólico sobre o destino.

4.2. Reconciliação com o Superego:

A súplica por intercessão expõe o conflito entre os desejos do Id e as restrições impostas pelo Superego, promovendo a reconciliação por meio do perdão simbólico.

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Conclusão 

A "Ave Maria", analisada por meio da filosofia, psicologia positiva e psicologia junguiana e da psicanálise, transcende seu papel como uma oração litúrgica e se torna um rico campo de estudo interdisciplinar. 

Sua estrutura ressoa com temas universais de virtude, esperança e transformação interna, oferecendo insights valiosos para aqueles que buscam compreender a espiritualidade como parte da experiência humana.

Sob a lente freudiana, a "Ave Maria" é mais do que uma expressão de fé: ela se torna um reflexo das dinâmicas inconscientes que estruturam o aparelho psíquico. 

A idealização de Maria, a busca por proteção e a sublimação dos instintos revelam a complexidade da relação entre religião e psicologia, destacando como os rituais e símbolos religiosos servem tanto à organização psíquica quanto à integração do indivíduo na cultura.

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Bibliografia

1. Freud, Sigmund. O Futuro de uma Ilusão.

2. Freud, Sigmund. Totem e Tabu.

3. Freud, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização.

4. Freud, Sigmund. Introdução ao Narcisismo.

5. Freud, Sigmund. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.

6. Jung, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo.

7. Campbell, Joseph. O Poder do Mito.

8. Ricoeur, Paul. Freud e a Filosofia da Cultura.

9. Frankl, Viktor. Em Busca de Sentido.

10. Winnicott, Donald. O Ambiente e os Processos de Maturação.

11. Klein, Melanie. Inveja e Gratidão.

12. Lacan, Jacques. O Seminário: Livro 11 – Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise.

13. Seligman, Martin. Florescer.

14. Durkheim, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa.

15. Fromm, Erich. Psicanálise e Religião.


16. Aristóteles. Ética a Nicômaco.

17. Platão. A República.

18. Santo Agostinho. Confissões.

19. Tomás de Aquino. Suma Teológica.

20. Levinas, Emmanuel. Ética e Infinito.

21. Seligman, Martin. Florescer: Uma Nova Compreensão da Felicidade e do Bem-Estar.

22. Csikszentmihalyi, Mihaly. Flow: The Psychology of Optimal Experience.

23. Jung, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo.

24. Jung, Carl Gustav. Aion: Estudos Sobre o Simbolismo do Si-Mesmo.

25. Hillman, James. O Código do Ser.

26. Campbell, Joseph. O Herói de Mil Faces.

27. Frankl, Viktor. Em Busca de Sentido.

28. Fromm, Erich. Psicanálise e Religião.

29. Neri, Aniela Jaffé. Aspectos do Feminino.

30. Watts, Alan. O Espírito do Zen.

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Pesquisa, texto e análise de Mauro Lúcio Gomes - Neuropsicanalista, professor de filosofia/história, palestrante, escritor, especialista em Psicologia, Psicologia Positiva.

sábado, 22 de outubro de 2011

SOPRO FECUNDO



Vento, sopro, alcance longínquo, profundo vigor.
Fronteiras, friezas e gritos, vem em socorro, escuta o clamor.
Sopro fecundo, sabedoria eficaz, cria e refaz.
Constrói, reconstrói, põe a mão como ao mar.
Acalma, respeita, raízes resgata.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

No dia da Amizade

Celebrar o dom, um dos mais preciosos, o da capacidade de ser para si com outrem.
Amizade, tesouro incalculável, água no deserto ou cobertor no frio.
Âncora que não conhece areia movediça, quando isso acontece, fica no tempo.
Vento cálido e sol que clareia.
Risos e escuta, partilha e silêncio.
Suporte nas diferenças e sabedoria para alcançar as afinidades.
Reciprocidade, festa e paciência.
No dia do amigo, muitas mensagens e festa!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Palestra: "Conversas sobre Filosofia Clínica" com o Prof. Hélio Strassburger





A Associação Baiana de Filosofia Clínica e a Livraria Saraiva
recebem Hélio Strassburger em Salvador para palestra.

Também um workshop com o filósofo acontecerá na cidade:
clique aqui e conheça os dados.

Informações pelo email ceficba@gmail.com

domingo, 24 de abril de 2011

Estrutura de Pensamento - EP


Estrutura de Pensamento, ou simplesmente EP, é um termo utilizado na abordagem terapêutica denominada de Filosofia Clínica, e definida pelo Filósofo e Professor Lúcio Packter como “tudo aquilo que está em você” (indivíduo). Assim, uma EP se constitui das emoções, das verdades subjetivas, das concepções cerca do mundo e si próprio, das buscas e tudo aquilo que habita o indivíduo, consubstanciando-se, assim, naquilo que Filósofos Clínicos denominam de “Malha Intelectiva”. Essa EP, conforme coloca Packter, vai se construindo, modelando, sendo preenchida de formas, movimentos, conceituações ao longo da história e pode ser facilmente compreendida através da Historicidade do indivíduo ou grupo em questão.

NOTA: em Filosofia Clínica se utiliza os termos “história” e “historicidade”. Uma explicação simples para historicidade seria: historicidade é a história da pessoa contada pelo ponto de vista exclusivo dela. Ou seja, a historicidade é a versão que ela mesma forma da sua própria história de vida.

Percebe-se que sendo essa EP tudo aquilo que está em mim, logo esse “eu” é anterior à ela. Assim, em Filosofia Clínica, podemos compreender a Estrutura de Pensamento como um espaço que ao nascermos está em branco e que vai sendo preenchido e estruturado ao longo da vida. Este é um ponto fundamental, pois mesmo tendo Lúcio Packter uma explicação filosófica mais aprofundada para escolher esta forma de organização do “eu” e da EP, não pode-se deixar de notar que, ao assumir esta postura, a Filosofia Clínica acaba por não ferir algumas concepções de mundo adotadas por parcelas humanidade, como, por exemplo, a crença em outras vidas e da anterioridade do “eu”.

NOTA: a Filosofia Clínica possui um olhar “quase que científico” quanto à religiosidade e à espiritualidade, pois parte da historicidade do partilhante (paciente) e unicamente das suas concepções, num trabalho profundo de investigação filosófica a partir da sua historicidade, não cabendo à ela questões quanto à veracidade de fatos ou verdades universais, mas apenas analisando as verdades subjetivas do indivíduo ou grupo em si.

Packter, ao elaborar o sistema que seria utilizado para a montagem da Estrutura de Pensamento, dividiu esta em 30 Tópicos estruturais, e abriu a possibilidade para a inclusão de outros infinitos tópicos, assim chamados Tópicos Anômalos.


“A Estrutura de Pensamento abrange 30 tópicos estruturais, do grego Tópica, Lugar, ou seja, à muitos lugares nos quais nós encontramos as emoções, no entanto, no lugar onde nós mais à encontramos é exatamente aqui (indica no vídeo o Tópico 4 – Emoções).” (Transcrição de palavras do Profº Lúcio Packter em “Vídeos Caseiros de Introdução à Filosofia Clínica”)

Após ordenadamente colher a historicidade, o Filósofo Clínico se ocupa de retirar dela os seus conteúdos e elementos, distribuindo-os e sistematizando-os naquilo que chamamos de Estrutura de Pensamento. Aqui esbarramos com um dos principais diferenciais da Filosofia Clínica, pois nela não existe a realização de estudos de caso para uma generalização de resultados, métodos e sistemas, conforme frequentemente é realizado por outras terapias, seguindo uma idéia de método científico. Assim, o Filósofo Clínico considera cada pessoa única, com uma Estrutura de Pensamento individual e, portanto, aplicará procedimentos clínicos exclusivos conforme as características daquela EP, sem generalizações ou universalizações de regras terapêuticas.


Os 30 Tópicos que Lúcio Packter define para a Estrutura de Pensamento são:

 T1.      Como o mundo parece (fenomenologicamente);
 T2.      O que acha de si mesmo;
 T3.      T3p1 Sensorial & p2 Abstrato;
 T4.      Emoções;
 T5.      Pré-Juízos;
 T6.      Termos Agendados no Intelecto;
 T7.      Termos: T7p1 Universal, T7p2 Particular, T7p3 Singular;
 T8.      Termos: T8p1 Unívoco & T8p2 Equívoco;
 T9.      Discurso: T9p1Completo & T9p2 Incompleto;
 T10.     Raciocínio;
 T11.    Busca;
 T12.    Paixões Dominantes;
 T13.    T13p1 Comportamento & T13p2 Função;
 T14.    Espacialidade: T14p1 Inversão, T14p2 Rec. Inversão, T14p3 Deslocamento Curto e T14p4 Deslocamento Longo;
 T15.    Semiose;
 T16.    Significado;
 T17.    Armadilha Conceitual ;
 T18.    Axiologia;
 T19.    Tópico de Singularidade Existencial;
 T20.    Epistemologia;
 T21.    Expressividade;
 T22.    Papel Existencial;
 T23.    Ação;
 T24.    Hipótese;
 T25.    Experimentação;
 T26.    Princípios de Verdade;
 T27.    Análise da Estrutura
 T28.    Interseções de Estrutura de Pensamento;
 T29.    Dados da Matemática Simbólica;
 T30.    Autogenia;

T = Tópico
p = Partição (do tópico)

por Gilberto Sendtko

domingo, 17 de abril de 2011

Filosofia Clínica - BH: Emoções.

Filosofia Clínica - BH: Emoções.: "Marcelo Osório Costa. Filósofo Clínico – Belo Horizonte/MG. Vamos supor que o partilhante relata que gosta muito de trabalhar, que a s..."

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

ARTIGO DE UM ESPECIALISTA EM FILOSOFIA CLÍNICA

A utilização de uma consciência para a alteridade em Filosofia Clínica
 Marcelo Osório Costa
 Belo Horizonte/MG

Para que algo se torne compreensível é necessário que se vá ao mundo existencial do outro, seja este quem for. Antes de iniciar como se utiliza a consciência para a alteridade, serão apresentados alguns pontos a serem observados e considerados para que o filósofo clínico possa fazer uma correta análise literal dos dados relatados pela pessoa. Diante da história de vida do partilhante, cabe ao terapeuta despir-se de algumas idéias arbitrárias. É se proteger das revoltas do mar, quando há possibilidade do navio estar à deriva do mar e do vento, sem direção alguma. O terapeuta também deve compreender que existem alguns pensamentos que revelam hábitos que podem ser imperceptíveis a ele. É necessário ao terapeuta, então, andar em direção contrária a essa limitação se quer uma leitura dos dados literalmente colhidos da história de vida do partilhante (pessoa que procura pelos serviços do filósofo clínico). O filósofo clínico[1], por sua vez, deve também orientar a sua intencionalidade para o partilhante e para as suas questões últimas. Gadamer propõe o seguinte: “(...) orientar sua vista ‘às coisas elas mesmas’” (GADAMER, 1997).

Muitos filósofos clínicos se vêem, no processo terapêutico, a quase todo instante suscetíveis aos desvios de suas próprias idéias, possivelmente por este motivo pode não ser possível aproximar de uma só vez a Estrutura de Pensamento[2] da pessoa que  procura pelos seus serviços. Essa tarefa, ao que se percebe em clínica, poderá ser alcançada quando se tem a idéia de que a Estrutura de Pensamento é primeira, constante e última, simultaneamente. O filósofo clínico não é um herói que alcança a leitura dos dados literais da Estrutura de Pensamento total e instantaneamente, mas deve compreender que é um processo epistemológico constante. O que importa para o terapeuta é não perder de vista o Assunto Último do partilhante. Segundo Goya, Assunto Último é (...) quando revela a(s) problemática(s) mais importante(s). Último aqui não tem sentido metafísico, essencial, único, como se não houvesse a possibilidade de outro assunto além. Significa o má­ximo de profundidade na análise do problema até o momento. (GOYA, 2008).

Em busca da aproximação da Estrutura de Pensamento do partilhante, e ao manifestar o Assunto Imediato e/ou Último em clínica filosófica, através da historicidade da pessoa, o terapeuta começa a pressupor, ou seja, a dar uma perspectiva clínica do todo da vida da pessoa. Isto significa que no momento que o partilhante relata para o filósofo clínico o seu Assunto Imediato e/ou Último, o terapeuta começará a direcionar o processo clínico. Naturalmente, o sentido histórico e total no processo clínico-filosófico somente se manifestará ao escutar e analisar toda a história do partilhante, e esse sentido se faz a partir da identificação do Assunto Imediato e/ou Último.

Quando o filósofo clínico se dispõe a compreender a história de vida de uma pessoa aproximando-se da Estrutura de Pensamento desta, o terapeuta realiza um projetar. Para compreender aquilo que é relatado pelo partilhante é preciso uma elaboração de um projeto prévio. Este “projeto prévio”, denominado assim por Gadamer, em sua obra Verdade e Método, poderá ser compreendido, em Filosofia Clínica, como a Colheita Categorial, os Exames Categoriais, a montagem da Estrutura de Pensamento e a Autogenia, e a posterior Análise da Estrutura de Pensamento.

O conteúdo obtido através destes procedimentos em Filosofia Clínica deve ser constantemente revisado tendo como base aquilo que vai se manifestando fenomenologicamente no processo terapêutico, tendo como referência a identificação do Assunto Imediato e/ou Último para não comprometer a perspectiva terapêutica. Packter, em seu Caderno B, # 23, propõe que três critérios são necessários para eleger os tópicos, que são eles: Assunto Imediato; Dado Padrão; Dado Atualizado. Desta forma, podemos entender que revisar significa enfatizar a escuta e relacionar as partes relatadas, pelo partilhante, com a totalidade histórica da pessoa, tendo como referência os critérios apontados por Packter.

Na medida em que o filósofo clínico se depara com a história de vida do partilhante é necessário revisar constantemente o projeto prévio, possibilitando, assim, um novo projeto. Assim, relações, tempos, lugares, circunstâncias, emoções, buscas, etc., são possíveis aparecer no decorrer do processo clínico-filosófico, e isto atesta a plasticidade da Estrutura de Pensamento. Desta forma, outros projetos poderão, diante da historicidade da pessoa, ser colocados lado a lado para que se possibilite estabelecer uma unidade de compreensão histórica.

Quando se procura compreender a história de vida do partilhante, possivelmente o terapeuta ficará exposto a equívocos de opiniões prévias. Isto é corroborado quando o filósofo clínico se depara com o próprio relato histórico do partilhante em clínica, ou seja, os pré-juízos não se confirmam naquilo que a pessoa é, por exemplo, os seus significados e seus valores representados pelo partilhante. Desta forma, compreender a história de vida da pessoa se dá a partir da elaboração dos projetos corretos e adequados às coisas do partilhante, e não de outra pessoa. Não se deve esquecer que projetos são antecipações que, a partir disto, podem ser utilizadas como referenciais na aplicação de Submodos.

Como é possível alcançar, então, a compreensão da história de vida do partilhante? Isto se dá quando há uma escuta literal, por parte do filósofo clínico, daquilo que o partilhante relata; algumas intervenções que, em Filosofia Clínica, são chamadas de Agendamentos Mínimos; a utilização de Divisões Gerais e Específicas; os Enraizamentos; Autogenia; e, Análise da Estrutura de Pensamento. Nenhuma compreensão da historicidade da pessoa será possível sem a identificação e a perspectiva clínica em relação ao Assunto Imediato e/ou Último. Pode-se entender, de modo geral, que pode haver incompreensão do histórico de vida da pessoa quando o terapeuta não vai ao mundo existencial do partilhante.

Não é possível haver um direcionamento clínico se o terapeuta não acompanhar atentamente o relato e os dados de semiose que se manifestam através da Estrutura de Pensamento da pessoa. A pouca proximidade do filósofo clínico em relação à pessoa naquilo que ela é no ambiente que ela está, poderá trazer como conseqüência certa desestruturação no partilhante e não alcançar o objetivo da Filosofia Clínica que é a busca da pessoa. Gadamer contribui relatando que “O que se exige é simplesmente a abertura da opinião do outro (...)” (GADAMER, 1997).

Para alcançar a compreensão do outro é necessário que essas exigências sejam vistas como fundamentais e radicais. É claro que existem alguns procedimentos que se farão quando necessários como, por exemplo, os enraizamentos. Um possível equivoco ético, em Filosofia Clínica, pode ser, por exemplo, quando diante de qualquer relato da historicidade de uma pessoa introduzir, por parte do terapeuta, direta e acriticamente os seus próprios hábitos lingüísticos, de conteúdos, significações, representações, axiologias, modelos epistemológicos, etc. É reconhecido como tarefa do filósofo clínico, dentre outras, alcançar, por aproximação, a compreensão do relato histórico existencial da pessoa tendo como ponto de referência as representações de mundo do partilhante. Gadamer, portanto, adverte que:

(...) o que é dito por alguém, em conversação, por carta, em um livro ou seja como for, encontra-se, de princípio, sob a pressuposição de que o que é exposto é sua opinião e não a minha, da qual eu tenho que tomar conhecimento (...) (GADAMER, 1997).

Como, então, compreender a representação do partilhante identificando que existem diferenças entre a representação do terapeuta e do partilhante? Uma hipótese pode ser apresentada quando há um choque entre a forma de representar o mundo, por parte do filósofo clínico, com o relato da história de vida do partilhante e suas representações de mundo. Este choque poderá manifestar certa percepção de um possível ser-diverso do uso das linguagens e suas representações existenciais. Para Deleuze “Deste modo, o registro da diferença se faz na identidade de um conceito indeterminado” (DELEUZE,1988). O mundo existencial do partilhante com suas representações, significados, emoções, axiologias são compreendidas como singulares quando o filósofo clínico se vê e se identifica como outro diferente e diverso do partilhante.

De um modo geral, no processo terapêutico poderá ocorrer que algumas representações, entre filósofo clínico e a pessoa, sejam familiares, usuais e comuns em seus usos e significados, porém, em casos singulares, na representação do partilhante, é necessário o uso de enraizamentos para que se tornem compreensíveis determinados conceitos. Para que as representações, significações, etc., se tornem familiares Packter adverte que “A pessoa é a medida de tudo o que lhe está em relação, medida essa que somente ganha significado com a qualidade da Interseção” (PACKETR, Caderno B, # 27). Assim, a Interseção é um aspecto a ser observado, pois ela determina todo o processo clínico quando não se perde de vista o objetivo da Filosofia Clínica. Packter, no entanto, nos mostra que “Tudo em clínica é a resultante da qualidade da Interseção entre o filósofo e a pessoa” (PACKTER, Caderno A, #11).

O filósofo clínico, ao querer compreender a historicidade da pessoa, não pode entregar-se à casualidade de seus pré-juízos e representações e ignorar aquilo que a própria história de vida do partilhante está manifestando. Assim, o filósofo clínico que quer compreender o mundo existencial do partilhante deve, em princípio, estar disposto a deixar que a própria Estrutura de Pensamento da pessoa diga alguma coisa por si mesma. Por isto que uma consciência formada para a alteridade deve sempre se mostrar receptiva, desde o princípio, para a história de vida do partilhante. Essa receptividade do terapeuta não diz respeito a uma auto-neutralidade e nem um auto-anulamento em relação ao partilhante, mas se deve compreender a existência e aquilo que é meu e do outro na diversidade de representações de mundo.

Referências Bibliográficas:
. DELEUZE,Gilles.Diferença e repetição.Rio de Janeiro:Graal,1988.
. GADAMER,Hans-Georg.Verdade e Método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica.Petrópolis: Vozes,1997.
. GOYA,Will.A Escuta e o silêncio: lições do diálogo na filosofia clínica.Goiânia.Ed.da UCG,2008.
. PACKTER, Lúcio.Cadernos de Filosofia Clínica. In: caderno A.Porto Alegre:1995 e 1999.
______.Cadernos de Filosofia Clínica. In: caderno B. Porto Alegre:1995 e 1999.
 
[1] É inicialmente o estudante de filosofia disposto a compartilhar um caminho incerto com outras pessoas, a atuar filosoficamente em cada endereço desse caminho tal, pois é em cada endereço que sua identidade se modela. Partilhando um período da existência de outro ser, sob a responsabilidade que o nomeou filósofo, sua identidade reside em sua posição dentro da situação vivenciada (PACKTER, Caderno A, # 5).
[2] É o modo como a pessoa está existencialmente no ambiente. (PACKTER, Caderno A, # 16).

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

FILÓSOFO CLÍNICO: O SUJEITO E SUA DANÇA À BEIRA DO ABISMO

ARTIGOS DE UM FILÓSOFO CLÍNICO

FILÓSOFO CLÍNICO: O SUJEITO E SUA DANÇA À BEIRA DO ABISMO
Hélio Strassburger

“É urgente partir sem medo e sem demora para onde nascem os sonhos , buscar novas artes de esculpir a vida.”
Armando Artur- poeta moçambicano

Quero compartilhar com vocês, alguns instantes do meu ser Filósofo Clínico. Os enfoques e perspectivas se apresentam, nos contextos da singularidade de cada caso, podendo mudar diagnósticos e prognósticos, se tratarmos de outros casos em outros contextos.

Espero alcançar a vocês alguns instrumentos capazes de contribuir para o ser terapeuta de cada um, através dos relatos e vivências aqui abordados. A escolha dos casos clínicos foi aleatória. Provavelmente, alguns dos mais interessantes, não possam ser compartilhados para além da interseção clínica, devido às singularidades envolvidas.
Acredito, que o ser terapeuta, acontece em um processo, numa dialética capaz de envolver sujeitos, num vir-a-ser impregnado de fracassos e acertos, onde a nossa humanidade se coloca à prova em cada momento, através dos silêncios, palavras, gestos e atitudes, na direção de compreender e atuar com o outro.
Existe uma cena no filme “Desconstruindo Harry”, de Woody Allen, em que o personagem fica “fora do foco”. Pois bem, às vezes se faz necessário desfocar nossos pré-juízos, para re-adequar nossa compreensão às possibilidades do novo, por um caminho sem estrada ou direção a seguir, no qual constantemente o fenômeno se mostra.
Penso que a clínica se inicia, quando a pessoa cogita a possibilidade de fazer terapia. A partir daí, numa sucessão de eventos, ela faz a sua escolha, no que se refere o profissional que irá atende-la. Neste momento, o sujeito já esboça alterações comportamentais, como o caso de S., sem queixas de insônia, alcoolismo e depressão: “Quando decidi te procurar, indicado por uma amiga das caminhadas no parque, logo imaginei como deveria me vestir para encontra-lo, precisava arrumar o cabelo que estava horrível e escolher um sapato adequado! Ouvi dizer que filósofos clínicos não medicam, não internam e não acreditam em loucura! Afinal, agora eu tinha alguém para me entender! Naquela noite, após marcar a consulta, dormi sete horas diretas, sem precisar da minha cervejinha.”
Noutro caso, M., após uma viagem de seis horas de Florianópolis/SC a Porto Alegre/RS, relata: “Saber que tu estavas aqui em Porto Alegre, no teu consultório, e que nós tínhamos duas horas de terapia, tornou minha vida melhor com uma semana de antecedência, até a viagem foi prazerosa.”
O filósofo Merleau-Ponty, em seu texto “Olho e o espírito”, esclarece: “O homem é espelho para o homem. Quanto ao espelho, ele é o instrumento de uma universal magia que transforma coisas em espetáculos, os espetáculos em coisas, eu no outro e o outro em mim.”
O papel preliminar do Filósofo Clínico é de acolher e compreender a pessoa que lhe chega. Às vezes, a pessoa já passou por vários profissionais, esteve internada e incapacitada de interagir com a vida. Nestes casos , assim me parece, o abismo se aproxima mais de quem sofre. Foi assim com R., que veio ao consultório após alguns anos de terapia no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Ela trazia consigo o diagnóstico de esquizofrenia. Nós não atuamos com base nas tipologias, por que, dentre outras coisas, acreditamos que nossa humanidade requer atenção e dedicação especial, para além das penitências alopáticas.
Compreensão e cuidados se fazem caso a caso, de acordo com o universo existencial de cada um. Muitas vezes, trata-se de um assunto imediato ou queixa, associado a manifestações de esteticidade, as quais contextualizadas na historicidade da pessoa, passam a ser compreensíveis, cujos comportamentos cumprem uma ou mais funções na malha intelectiva do sujeito que chega. Pois bem, R. assim se apresentou, referida, de forma pouco estruturada, que não era compreendida pelas pessoas, dizia uma coisa e interpretavam outra, sentia muita saudade de casa e da família, apesar de ter sido expulsa por eles, pois brigava muito com todos.
Neste caso, a desestruturação de raciocínio foi padrão, no que se refere ao primeiro encontro, à medida que a narrativa do seu histórico avançava, R. mostrava-se mais “à vontade” quando falava de si e das suas circunstâncias. Dona de uma estrutura riquíssima, a autogenia assim se mostrou: “R. amava o exótico, tanto com objetos, lugares ou pessoas, necessitava buscar “coisas novas” a todo instante, sua paixão pela arte ajudou muito a contemplar este aspecto, expresso pelas pinturas, esculturas e pesquisa com moda de época mas seguia incompreendida pelas pessoas que lhe eram caras, a mãe, irmãos e a filha. Considerada “alienada”, porque não desempenhava uma atividade produtiva tradicional, R. ficava cada vez mais triste, até o momento em que um “iluminado” proferiu sua sentença: R. está maluca!; parecer avalizado por um profissional que a internou!
Trabalhando com uma metodologia diferente e, entendendo a pessoa através de um viés epistemológico afinado com nossa humanidade, pude compreender a novidade do sujeito que aparecia. Isto se deu pela via da interseção, por onde a solidão de R., bem como seus demais sentimentos e percepções puderam ser compartilhados. Através da historicidade, e da elaboração autogênica, fomos descobrindo, R. e eu, que uma das possibilidades para estabelecer contato como mundo era sua arte, cujos significados ela própria traduziria aos demais, ou seja, ela interpretaria a si mesma utilizando-se da pintura e dos desenhos.
Com a participação e ajuda de seu companheiro e da sua filha, isto se tornou possível. Hoje R. tem uma produção artística de valor, encontrando-se outra vez inserida no contexto que antes não a compreendia.
A análise da matéria- prima oferecida pelo partilhante na etapa da localização existencial, se faz à base para o momento seguinte da clínica, ou seja, a montagem da estrutura de pensamento e a identificação dos submodos, isto quando o partilhante possui uma interseção positiva com o filósofo clínico, capaz de impulsionar uma disponibilidade ou uma abertura à perspectiva terapêutica que se oferece.
Num texto intitulado “A casa dos loucos”, o filósofo francês Michel Foucault ensina: “No fundo da prática científica existe um discurso que diz: nem tudo é verdadeiro; mas em todo lugar e a todo momento existe uma verdade a ser dita e a ser e a ser vista, uma verdade talvez adormecida, mas que no entanto está somente à espera de nosso olhar para aparecer, à espera de nossa mão para ser desvelada. A nós cabe achar a boa perspectiva, o ângulo correto, os instrumentos necessários, pois de qualquer maneira ela esta presente aqui e em todo lugar.”
Foucault me faz relembrar um caso clínico que batizei como: “o marinheiro que sabia curar”; um dos raros trabalhos que tive, onde coincidiram assunto imediato e assunto último: G. um ex – marinheiro europeu, atualmente residindo em, Porto Alegre, aposentado em razão de acidente, chegou ao meu consultório indicado por uma amiga em comum. Sua fala inicial, dizia de dores insuportáveis no braço direito, insônia e muita tristeza devido a este fato. Uma análise preliminar da estrutura mostrava que G. não tinha o braço direito!
Com as circunstâncias investigadas, o diagnóstico ficou acessível à compreensão clínica, ou seja, G. perdeu o braço em um acidente de moto, aos 24 anos de idade, quando recebeu a notícia da morte do pai. Neste evento, ficou em coma por alguns dias, num hospital no sul da França, onde relatou experiências “fora do corpo”. Recuperado, G. volta ao Brasil e aqui se estabelece, vem residir em Porto Alegre e conhece sua companheira. Mas as dores no braço continuam, realiza vários exame médicos e nada consegue. G. é levado pela companheira a um centro espírita, onde descobre uma habilidade peculiar: com a mão que lhe resta, onde G. toca, transmite uma energia capaz de curar. E, quanto mais se utiliza desta força, mais forte fica, suavizando inclusive as dores. Segundo G., seus colegas da comunidade espírita, que possuem o dom da mediunidade, afirmam enxergar o braço direito de G. em ação, em plena atividade curativa.
G. revela ter auxiliado várias pessoas nestes últimos anos, inclusive pacientes com diagnósticos de câncer terminal, os quais apresentaram um elevado grau de remissão dos mesmos.
G. permanece atuando, numa comunidade extremamente pobre, no sopé do morro Porto Alegre, incógnito, realizando um trabalho maravilhoso junto aos que sofrem, longe dos hospitais, universidades e do mundo das “compreensões racionais” convencionais.
Encontrar alguém com quem compartilhar sua dores e descobertas, tem ajudado G. a prosseguir na sua atividade de auxílio aqui em Porto Alegre. Uma tradução sintetizada da autogenia de G. : O que acha de si associado ao papel existencial e tópico de singularidade em interseção negativa com pré-juízos, busca e princípios de verdade, isto tudo em processos inversivos de somaticidade, desconstruidos por comportamentos fortemente enraizados nas funções intelectivas que embasam os tópicos acima.
Os desafios se mostram de várias maneiras, como o exemplo de A . 27 anos, usuário de cocaína há sete, comportamento violento em certos contextos, o que já lhe valeu algumas internações e dois tiros na perna. Trazido pela avó, que queria salva-lo das drogas, A . no início se mostrava muito desconfiado, falando muito, e com expressões que me pareciam desprovidas de conteúdo. Iniciamos com duas sessões por semana. No primeiro mês A . cumpriu fielmente sua parte no contrato, após, começou a chegar atrasado, inicialmente 10 a 15min., depois 30 min., até as ausências sem aviso. O jogo tinha iniciado!
Porque era desta forma que ele estabelecia relação com o mundo. Vejamos a autogenia: “A . sempre fora educado para ser melhor, foi assim na escola, no judô, natação e inglês. Ocorre que A . não conseguia se destacar, e, cada vez que isto acontecia, a mãe o punia severamente, pois ela via o filho como o melhor, com a convivência do pai; as medidas educativas consistiam em trancá-lo no quarto, sem alimentação, exposição ao ridículo na comparação com os outros irmãos e amigos, bem como proibição de passeios ou jogos. A . descobriu que poderia ludibriar a mãe, falsificando notas e resultados, para agrada-la. Assim foi por algum tempo, até a descoberta e as punições que se seguiram. A . age como se esperasse a todo instante, uma restrição punitiva de alguém, com o agravante de reações violentas em alguns casos. Pós duas semanas de ausência, liguei para A . perguntando-lhe como ele estava e, se precisava de algo, não mencionando suas ausências aos encontros. Ele buscou justificar-se, reafirmei que importava saber se estava bem, ele disse que sim, mas nenhum indício que retornaria a terapia. Por intuição na semana seguinte, no horário
Da sessão de A ., lá estava eu a sua espera, a razão dizendo que ele não apareceria, mas algo afirmava que viria, foi o que aconteceu. A . apareceu no horário, e, os conteúdos trabalhados, foram de grande valor para o processo terapêutico, bem como os encontros seguintes. Hoje, temos seis meses de caminhada. A . ainda falta algumas sessões, mente um pouco, como que para testar onde está pisando. Tento mostrar, que existe um mundo diferente por trás das imagens torcidas que seu espelho vinha lhe mostrando até hoje, sou uma espécie de cúmplice neste trajeto que A . percorre, na direção de uma vida melhor para si.
Algumas vezes os ensinamentos da teoria só servem como teoria. Estou falando, por exemplo, do agendamento mínimo nos exames categoriais. Lembro de um atendimento efetuado com C . ,09 anos de idade, trazida pela mãe, cujo diagnóstico (proferido pela mãe) era “loucura”. Para viabilizar a terapia, utilizei, esteticidade seletiva combinada com análise indireta, para qualificar aquilo que acredito ser o motor de partida da clínica: a interseção!
O dado de semiose prioritário da menina era o desenho, através do qual ela falava de si e de suas vivências. Para chegar à este momento de terapia, o trabalho foi desafiador: iniciamos a clínica com a presença da mãe, o que não ajudou nenhum pouco, pois ela falava pela filha. Em outro momento, perguntei-lhe: o que estava acontecendo? Resposta: não sei! Após, tentei descobrir onde nasceu, e recebi um sonoro silencio como resposta! E agora? O que fazer? Tentei desenhar em um quadro e também não funcionou, C . parecia entediada e desconfiada. Após pedir à mãe para que se retirasse, resolvi inverter os papéis, ou seja, eu iria falar um pouco de minha história para C ., desenhando em um pedaço de papel com giz de cera. Comecei desenhando a casa onde nasci, nem cheguei a concluir o telhado, quando C . tomou de minha mão o giz e afolha, dizendo: “agora eu é que vou desenhar a minha casa!” e o trabalho aconteceu, via esteticidade seletiva, pude desenvolver a historicidade de C . e montar sua estrutura de pensamento, utilizando uma ferramenta promissora, neste caso: uma folha em branco e um giz de cera!
A referencia do lugar da clínica, na interseção entre o filósofo clínico e seu partilhante, me parece fundamental, embora passe despercebida por muitos terapeutas. Alguns preferem atuar em consltórios, quando seus partilhantes, pela estruturação própria, gostariam de eleger uma praça, com muito verde, arvores e flores; em outros casos, alguns partilhantes gostam de caminhar, e o filósofo desmerece esta característica de seu parceiro de interseção. Este é um item, dentre tantos significativos para uma atividade clínica favorável ao partilhante. Esta atividade terapêutica que se inicia, se mantém ou se extingue, pelo caminho das variáveis da interseção.
O diálogo entre dois sujeitos pode ser uma terapia eficiente. Através do olhar, de um abraço generoso ou pelo som da voz do outro, se estabelece uma freqüência capaz de impulsionar o trabalho clínico, podendo ocorrer uma interseção significativa entre consciência, vontade e representação, expressos por este encontro.
Arthur Schopenhauer em seu texto “O mundo com vontade e representação”, destaca: “o objeto nada é além da representação do sujeito, assim também o sujeito, dissolvendo-se por inteiro no objeto observado, se torna ele próprio este objeto, na medida em que toda a consciência nada mais é além da imagem límpida deste”. Neste sentido, uma ferramenta eficaz para a viabilização clínica, possibilitando, através de si, a utilização de novos instrumentos clínicos, como o caso dos sonhos.
O ano era 1999, na cidade de Florianópolis/SC, encaminhada pelo colega Lúcio Packter, atendi L., uma moça de 16 anos, que chegou com um diagnóstico peculiar de seu oftalmologista: embora tivesse todas as condições clínicas para enxergar, estava cega!
Este foi o assunto, resumido, que a trouxe: uma reação somática a um evento específico. L., tinha ido à excursão da escola com um grupo de colegas, passar o dia numa praia próxima. Brincariam, jogaram e passearam bastante. Ao final do dia, quando os professores reuniam o grupo para o retorno, alguns meninos do lugar passam a apedrejar o ônibus em que L. estava junto com seus colegas, instalando-se um pânico generalizado. L. tenta sair pelo corredor do veiculo, tropeça, cai e é pisoteada pelos colegas e amigos. A partir deste momento, ainda no chão, L. não pode mais enxergar! Provavelmente, não quer ver mais nada, penso eu! Mas, por que? Quais os motivos? Qual a relação tópica desencadeante desta violente reação somática?
Historicidade apurada com encontros de 2 a 3 horas, e, o diagnóstico revela como significativos: como o mundo parece reforçado por pré-juízos em conflito com emoções subsidiadas pela axiologia, reforçados pelo papel existencial com desfecho somático.
Este caso assim se mostrou fenomenologicamente: “para L. o que importa nesta vida e o que faz este mundo legal, são os amigos e amigas que se pode ter, especialmente aqueles da escola, os mesmos que a pisotearam no ônibus! Para L. esta atitude era inacreditável! Ela não poderia odiar quem amava, amigos de praia, escola e diversão, que era o que valia a pena na sua cidade. Basicamente, esta estruturação era o dado atualizado de um padrão em sua vida, ou seja, ela considerava-se traída pela família por ser pobre e desconsiderada pelos pais, relacionando-se fortemente com uma tia e com os amigos, esforçando-se na manutenção desta amizade.
Além de uma interseção muito positiva, utilizei-me de alguns instrumentos clínicos (submodos), encontrados no mundo existencial de L., para, junto com ela, trabalhar a desconstrução que, eu acreditava, fariam L. voltar a ver, como: roterizar associado ao lado sensorial, combinados com percepção, mantendo-a inversiva e em recíproca de inversão através de deslocamento curtos. O leitor poderia perguntar: Mas como? Deslocamentos curtos? Sensorial? Ela não estava cega? Pois foi assim que ocorre. Mantendo L. em recíproca de inversão e inversão alternadamente, eu ia narrando a paisagem ao redor, alternando cores, propondo aromas, sugerindo toques nas arvores, em suas folhas,
Descrevendo o azul do céu, que para L., estava um tanto escuro, parecendo que ia chover. L. participou avidamente do roteiro, como se estivesse enxergando, inclusive descrevendo o tipo de flor que estava “vendo” e os aromas que sentia.
Mas, surpreendeu-me, quando utilizou-se de um sonho, para desconstruir sua elaboração somática, a qual impedia sua visão. Ela sonhou, na noite anterior ao nosso terceiro encontro, que estava caindo de um penhasco muito alto, e, precisava abrir os olhos para ver onde ia bater, enxergou pedras e muita água, ao se debater e rolar na cama, L. cai e acorda, abrindo os olhos e enxergando novamente. A euforia foi tanta, que correu para fora de casa, onde o sol muito forte a faz desmaiar.
A tia carrega L. para dentro de casa, e, aos poucos, faz com que L. recobre a consciência e a visão. Basicamente, L. realizou, via adição e deslocamentos, permanecendo inversiva, um roteiro com desfecho semelhante ao impacto que sofrera no passeio, uma queda para superar a outra, através de um sonho!
Espero que este pequeno texto, possa servir como uma proposta de diálogo, buscando no combustível das críticas e reflexões, alternativas e subsídios para aperfeiçoar a nossa filosofia que se faz clínica, bem como estimular e desenvolver a arte singular de cada um em ser humano.
Penso que, uma parte significativa da atividade terapêutica, como se desenvolve em meu compartilhar diário, não pode ser expressa por nossos, às vezes limitados dados de semiose, pois fazem parte do intangível, da subjetividade que surge como resultado de um encontro de subjetividades, da intuição, das singularidades que vão se desenvolvendo, de um ouvir e um dizer que falam para alem das pretensões da razão, por isto, me perdoem por não poder dizer mais.

Uma fonte extraordinária - Hélio Strassburger

ARTIGOS DE UM FILÓSOFO CLÍNICO
Uma fonte extraordinária
Hélio Strassburger


“Que distância percorrida desde as margens do Nada, desse Nada que nós fomos até esse alguém, por ridículo que seja, que reencontra o seu ser para além do sonho!”
Gaston Bachelard

Um viés de interseção entre expressividade e busca pode ser encontrado no cotidiano. Mesmo quando a pessoa faça referência a si mesma como lugar de realização, seus episódios existenciais podem ser desmerecidos e ilegíveis ao olhar sem noção de si mesmo.

A desorientação precursora, tratada pela adesão apressada a ideologia da sua tribo, costuma significar infindáveis labirintos a afastá-lo cada vez mais de seu eixo. O ambiente onde nasceu e sua família, onde aprendeu a ler e escrever, a escola e a igreja, já deformam autenticidades, ainda mais quando a criança começa a expressar contradições de aparente sem sentido. Daí logo surge alguém para ensinar os meios para renunciar os sonhos em razão da aceitação social.

O alcance da domesticação depende muito da singularidade e do contexto envolvidos. Lógicas de rebanho apreciam fundamentar rituais para desacreditar autonomias e deixar tudo como está. A noção de coerência institucional oferecida desde cedo, além de dificultar possibilidades de invenção e criatividade, também serve para enraizar sensações de deslocamento e impossibilidade de conhecer outras verdades. Assim a diferença é ameaça e passa a ser vista como marginal, um desajuste com o mundo considerado normal.

É possível viver uma vida inteira em desacordo consigo mesmo. Instantes de negação aos momentos de recém-descoberta. Os itinerários da originalidade pessoal podem seguir distorcidos, e viver como se fossem expectadores nos próprios eventos.

A busca pessoal pode seguir desfigurada ao tentar se adequar aos arranjos da conformação dominante. Um discurso bem acabado por onde se instituem as leis e o gesso aos propósitos de mudança. O significado de cada um passa a ser desmerecido, como se fosse inevitável viver assim.

Gilles Deleuze refere: “Só Dioniso, o artista criador, atinge a potência das metamorfoses que o faz devir, dando testemunho de uma vida que jorra; ele eleva a potência do falso a um grau que se efetua não mais na forma, porém na transformação – ‘virtude que dá’, ou criação de possibilidades de vida: transmutação.”

O bem estar representado pela verdade das cidades, aparece como algo a ser alcançado a qualquer preço. Endividados, devedores e credores se encontram culpados e a sustentar uma lógica das aparências. Um fascínio irresistível a acenar coisas cada vez mais distantes, onde o sujeito passa a ser objeto. Os dias se passam na ante-sala das promessas não cumpridas.

Ao discurso previsível da normalidade a busca pessoal dessemelhante surge como ilusão. Premonição inadequada e distante dos consensos estabelecidos na tribo. Para mostrar os dias como entregues a própria sorte, refere tudo ao redor como destituído de pontos de fuga.

O ser animado pela juventude e alegria dos recém-chegados na aldeia costuma permanecer multidão, vagar para longe de si e alimentar sensações de chegar a lugar algum. Para que o extraordinário aconteça, parece impreciso conjeturar esboços aos novos caminhos.

Ficar á deriva de si, para suportar momentos de transição pode ajudar a desintoxicar as ressonâncias históricas, por onde alguns fantasmas ainda sobrevivem. Na multiplicidade dos cotidianos papéis, muitos são os esboços para depois de amanhã. Quem sabe o imaginário possa encontrar outros nexos, na especulação dos rascunhos com as provisórias certezas. Talvez aí a história de cada pessoa possa deixar de ter autoria desconhecida.

Michel Maffesoli assim refere, sobre a natureza dos disfarces: “o sentido para a pessoa é fornecido pela pluralidade das máscaras que a constituem, e pelo contexto no qual suas diversas máscaras poderão expressar-se”.

Um lugar onde as miragens e a sensação de se mover em direção ao nada, sejam superados pelo olhar a desvendar subúrbios. A restrição intercalada nas crises de cada um, pode querer dizer coisas ainda sem nome ou referir exílios, quando os contornos inesperados começarem a surgir.

Quem sabe uma epistemologia mutante, consiga dialogar com o ímpeto de transformação calado pela ética dos consensos. Capaz de realizar as proezas e peculiaridades, reservadas a essa afinidade enigmática onde ser e não-ser passam a integrar uma coisa só.

Ao tentar desconstruir a idéia de que o melhor já foi feito, aumenta a suspeita de se encontrar a improvável arte de encantar a vida. Uma pluralidade perspectiva onde os subterfúgios de transgressão surgem em contraponto à rigidez de uma só versão.

Na dialética de Jorge Luis Borges: “o homem que se desloca modifica as formas que o circundam”. Assim a expressividade clandestina pode descobrir vias de acesso às novas linguagens e horizontes plurais, até então tidos como absurdos na ótica do bom senso.

O itinerário nômade ou de percurso desnorteado aprecia descrever inacreditáveis fenômenos. A busca por cultivar espíritos livres parece estar relacionada à contradição com os propósitos de ser um só. Presságios para alguém desacostumado com a procura pelos arredores de si mesmo.

Ao perseguir coisas de superfície é provável a verdade de cada qual seguir impronunciada.

Localizar episódios existenciais até então desarticulados, pode ajudar a intuição e o instinto encontrar novos rumos. Nos sucessivos enredos contidos entre o dizer e o fazer, os estilhaços da errância podem realizar façanhas consideradas fantasiosas e descobrir vontades ainda sem representação.

O apelo sedutor dos princípios de verdade costuma conter sofisticadas armadilhas, várias delas estimulam alguma forma de competição ou comparação com os demais. Nesse sentido, apostam na dificuldade em se descobrir as lógicas do imprevisível, ao sugerir sua incompreensão ou desatino. Ao vislumbrar as texturas do paraíso perdido, talvez seja possível encontrar a fonte de inspiração para o que vem depois.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

MODULO AVANÇADO EM FILOSOFIA CLÍNICA

MÓDULOS AVANÇADOS EM FILOSOFIA CLÍNICA

Aulas de Lúcio Packter, Hélio Strassburger e Mônica Aiub - julho, setembro e outubro.
Aulas de 09:00 às 17:00 hs. em um sábado de julho, setembro e outubro.

20 horas/aula

VAGAS LIMITADAS
Investimento: R$ 480,00 ou em três parcelas de R$ 160,00


PRÉ-INSCRIÇÕES ABERTAS:
filosofiaclinicabh@gmail.com
BELO HORIZONTE